quinta-feira, 10 de dezembro de 2009

[Tenho corpo, logo existo]

¬¬¬
Pensar o ser humano implica também pensar o seu corpo. Corpo físico, corpo mental, corpo estático, corpo em movimento, corpo social. O corpo em seu conteúdo, em sua forma, ao percorrer tempos e lugares diferentes, passa a representar não apenas aquilo que se revela biológico, mental, espiritual. O corpo, como lugar em que se inscrevem os elementos culturais presentes nas experiências que os sujeitos vivem ao longo de sua existência, é a primeira forma de identificação: logo ao nascer somos identificados através da corporalidade, como homens e mulheres.

Ter um corpo é algo que extrapola nossa compreensão. É cartesiano: corpo pode lembrar ou ser muito parecido com o de alguém ou de outros, mas nunca é igual, até porque sua instância básica na dimensão espacial e temporal, da presença do aqui e agora, é moldada e atualizada a todo momento. Tenho um corpo, logo existo. Especificamente na prática da conscientização do movimento tratamos de um corpo que sabe que sente, sabe que existe e sabe que sabe que existe e sente.

Na dança, o corpo torna-se o veículo de representação da realidade, ou da ficção ou de ambas. Acompanhando a evolução da civilização ocidental, deduzimos que a dança esteve sempre ligada à vida em sociedade, como forma de expressão do ser e do estar. É assim que acontece com o espetáculo "Me=Morar", no qual o Coletivo Corpomancia se coloca de forma a contar um pequeno mas importantíssimo período da construção da sociedade morenopolitana: a história da ferrovia e de suas imbricações com a cidade. É fundamental conhecer a história, embora o campo-grandense não dê a mínima pra sua história.

Desde os primórdios das sociedades, é através das dança e do canto que o homem se afirma como membro da comunidade. A dança gera a metamorfose: transforma os ritmos da natureza e os ritmos biológicos em ritmos voluntários, harmoniza a natureza e dá poder para dominá-la. A música modal. A música tonal. A linguagem corporal simboliza alegrias, tristezas, vida e morte, celebra o amor, a guerra e a paz; principalmente como forma de expressão dos sentimentos, emoções, desejos e interesses de uma sociedade. E ao tirar a dança do palco e colocá-la nos aposentos de uma casa de arquitetura rústica e simples, o Corpomancia leva isso ao paroxismo.

No "Me=Morar", as noções de corpo e movimento estão estreitamente relacionadas e devem ser contextualizadas antropológica e historicamente. Fica claro que o indivíduo conhece o mundo através de sua entidade corporal. Graças ao movimento o homem aprende a estar no espaço. Há emoções fortes: a emoção, atividade eminentemente social, afirmando que a emoção nutre-se do efeito que causa no outro, isto é, as reações que as emoções suscitam no ambiente funcionam como uma espécie de combustível para sua manifestação.

Quem assiste o espetáculo, limitado a uma platéia de apenas dez pessoas por sessão, fica junto com quem dança; não há a separação palco/platéia. O experimentar corporal desponta como uma continuidade de sentimentos que se molda a si mesma. A moldagem dessa experiência é a própria identidade, até porque a audiência está presente, faz parte ela mesma do espetáculo —se alguém esticar o braço pode simplesmente tocar um dos atores/dançarinos.

Esse experimentar tem relação direta com os movimentos da dança e com a imagem corporal. O movimento é apenas e unicamente compreendido desde o externo. É a expressão da possibilidade de transformar o que o corpo apresenta em si mesmo. O corpo incorpora em si a possibilidade contínua de crescer e perscrutar-se. Cada expressão, cada gesto, traz em si a possibilidade de transformação. O movimento é sempre decorrência das histórias individual e coletiva. Num momento, lembra a casa/lar; noutro, lembra a estação ferroviária; mais adiante, remete aos trilhos e suas relações com a história da cidade.

E junto disso, há a roupa. Ela passa a ser não apenas um acessório, mas uma forma própria de expressão, até porque a nudez acaba se tornando agressiva na medida em que o traje vai muito além do abrigo e da proteção para tornar-se uma forma de posicionamento ético e moral diante do outro. Dançar é certamente o melhor meio para se fazer a experiência de diálogo com o corpo: o nosso próprio e o dos outros. O vestuário, sem cor, traz à lembrança antigas fotos em preto-e-branco, fazendo com que as linhas praticamente desapareçam, tornando o ambiente flou.

Há também a trilha sonora que não incorpora apenas a música —aliás, tem muito pouca música. São os ruídos de um cotidiano constantemente em movimento: pancadas, objetos que desabam, o arrastar os calçados, o frufrulhar dos tecidos, a estática do rádio, a incômoda campainha do telefone. O cenário extremamente despojado é a própria casa, praticamente sem mobiliário, remete a um ambiente franciscano com deviam ser as próprias casas nos seus momentos mais vivos.

Ao dançar, o ser humano é individual e único, mas no "Me=Morar" necessitamos do outro para demonstrar o que se quer dizer. A construção da identidade, através do papel do outro, nos mostra que o outro e o eu não podem existir um sem o outro —inclusive o espectador— tal e qual gêmeos siameses, mesmo que antagonistas, ocorre à afirmação da identidade, sintetizando que é necessário expulsar o outro de dentro de si e o que possa conservar para que indivíduo venha a se apropriar e construir sua própria identidade.

Entretanto, o papel do outro em todo processo de construção da identidade é imprescindível, pois sem ele não há possibilidade de amadurecimento da consciência, assim como não há com o que se comparar. O outro determina a natureza social do homem e as interações sociais vão configurando a personalidade. A gênese do seu eu se faz através da diferenciação e da construção progressiva. A pessoa apropria-se de sua identidade como sujeito social e vai se individualizando.

No final, atores e platéia se materializam numa sala em ruínas, com cacos de telha cobrindo perigosamente o piso. É um cenário de destruição. Tenho a boca seca e meio adocicada, os olhos arregalados e úmidos, a pele arrepiada e inundada de suor, e trago nos lábios, um sorriso tímido, com um esgar de tristeza. É o medo das conseqüências. Conseqüências das marcas produzidas pela poesia dos corpos em meu corpo. Da rima e da beleza da sonorização, ora lento, ora rápido, numa sucessão de espasmos ritmados, semelhantes a uma contração.

Sou tomado de sentimentos controversos que me fazem pensar, sonhar, lucubrar. Me encanta a presença do ritmo na dança e na poesia. Me fascina os corpos em movimento, os ruídos que tornam a casa viva, e até a ausência da música. Me instiga o movimento do corpo na dança, como se fossem flores ao vento. E o olhar fragmentado desses movimentos instigam meus sentimentos, que no final produzem não uma análise crítica mas uma lucubração sentimental.

terça-feira, 8 de dezembro de 2009

_Uma razão para respirar

>>>
Faz 29 anos que John Lennon morreu. Reproduzo este texto ("Uma Razão para Respirar"), do livro "Um Espanhol no Trabalho", só para relembrá-lo.

Me imaginei num barco num rio, com árvores de tangerina e displasia. Este devia ser o capítulo final em minhas economias da vida. Eu puxei a tomada e embarquei num barco para lugar algum. Sofri de insônia toda a minha vida, mas, como Isaac Newton, tive que derrubar todas as maçãs. Era hereditário (como minha testa). Quis permanecer anônimo num mundo de filadelfianos. Eu tiquetaqueei eu mesmo fora e pus-me em meu lugar, uns dois camados o marrompedra do meu ilustre doente. Eu fui convencido que eu estado aqui antes. Chame isso o que quiser, eu chamo de Rudy. Eu tinha andado nestes mesmos campos de primavera empoeirados antes? Ou era eu justo uma circunavegação da vítima? Sim, pois que eu ando através de Rudy Valley, mim não temerá nenhum Evel Knievel. O alimento da sucata fêz-me tolo; o alimento rápido retardou-me para baixo; Eu tive que começar fora no batente seguinte. Eu me alinhei ao som de um bando militar. "Você faz exame desta mulher em qualquer lugar no detalhe", que a voz soou para fora. Eu apavorei-me lentamente e me recolhi ao exercício de minha discrição.

sábado, 5 de dezembro de 2009

.::Festival do mal

[>>>]
Um estranho festival acontece em Campo Grande. Fogo no Cerrado, um evento que, segundo seus promotores, "absorve uma perigosa e secular ação que a sabedoria popular indígena registra: o melhor modo de se restabelecer o solo e torná-lo fértil para as novas lavouras vindouras é atear fogo ao solo gasto e desnutrido, resultado de um ano todo de colheitas."

Num momento tão difícil para as causas ambientais, da busca pela solução dos problemas que provocam o aquecimento global, é estranho que haja alguém que venha fazer apologia do foto no cerrado, um sistema tão degradado, que resta no Brasil, menos da metade do que existia originalmente.

Fogo, incêndio, queimada contribuem muito para a degradação das matas, poluição do ar, causam morte, poluem o ar do campo e das cidades, levam doenças, provocam a morte de enorme quantidade de animais, que perecem carbonizados e intoxicados pela fumaça.

O impacto ambiental é enorme. Existem meios para que o homem do campo possa trabalhar o pasto ou a roça sem ser necessário destruir as matas com o fogo. Todos os anos, registram-se enormes volumes em prejuízos de propriedades, vidas, dinheiro, mas pouco se consegue em virtude da mentalidade do tipo "o melhor modo de se restabelecer o solo".

Fariam melhor os promotores, participantes e assistentes do Fogo no Cerrado se celebrassem a vida e não fogo, aqui um símbolo de morte e destruição. Mais que uma festa do bem, o Fogo do Cerrado é a própria celebração do mal.

quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

.::Vergonha é ser ignorante

[>>>]
Por conta do Dia Mundial de Combate à Aids, fiquei lucubrando a respeito da motivação de profissionais de comunicação, principalmente jornalistas e publicitários, ao grafar a sigla aids com as letras ou com a inicial maiúscula. Expressei minha dúvida no Twitter e logo apareceu alguém que, presumo publicitário, explicando que "aids com a letra 'a' em caixa alta é um método visual de chamar atenção em produtos de mídia, e facilita a leitura cerebral". Ante a minha natural rejeição a tão estapafúrdio argumento, o moço ainda complementou: "depende da sua interpretação da frase, publicitários, designers e arquitetos também trabalham com o subconsciente da pessoa".

O ínclito "professor" comete algumas impropriedades em suas explicações. Primeira, e mais grave: subestima minha inteligência e meus conhecimentos de comunicação. Depois, fala em "leitura cerebral", uma obviedade escandalosa, visto que não existe outro órgão no corpo humano que leia, fato comprovado em 2006 por um grupo de cientistas franceses que conseguiu identificar a região do cérebro indispensável para a leitura e demonstrar a importância do inconsciente na percepção das palavras.

Aids é uma sigla —e siglas configuram uma região sombria do idioma português (e de outros idiomas também). Uma dessas confusões é confundir sigla com acrossemia, redução de uma palavra ou conjunto de palavras às suas letras ou sílabas iniciais. Há também a acrografia, que é a redução de uma expressão de duas ou mais palavras ao conjunto de suas sílabas (ou elementos fônicos) iniciais; e a braquigrafia, redução de um conjunto de palavras a uma só palavra, que combina o processo de acrografia com sigla, obtendo-se seqüência fônica aproximativamente enquadrada nos padrões fonológicos da língua em que são criados. Em todos os casos, grafa-se em caixa alta apenas a primeira letra —acrossemia: Petrobrás; acrografia: Sudene; braquigrafia: Funarte.

Acreossemia, acrografia e braquigrafia diferem-se claramente de sigla, que é a redução de um conjunto de palavras apenas às letras iniciais de cada palavra. Existem siglas que são apenas soletráveis, tais como CIA, KGB (que quase todo mundo botava no feminino, a KGB, quando deveria ser no masculino —e que está em desuso), cd, DNIT, STF etc. As que são referentes a nome próprios, devem ser grafadas em caixa alta. Há as siglas que são legíveis como palavras, tais como Vasp, aids, ONU, Sesc etc. Nestas pode ser usar a regra de grafar apenas com a inicial maiúscula as que têm mais de três letras e que são nomes próprios, com as letras em caixa alta quando são três ou menos letras e são nomes próprios.

Não há justificativa para se grafar com maiúsculas substantivos comuns —que, como se sabe, escrevem-se com minúsculas, inclusive a letra inicial— representados por bigla, trigla, sigla, acrograma ou abreviatura. Não se escreve Horse-Power (cavalo-força), Policial Militar, Compact Disc, Acquired Immunideficiency Syndrome, Human Immunideficiency Virus, Televisão (o receptor), Disc Jockey, Long-Play e tantas outras palavras e expressões presentes no nosso dia-a-dia.

Logo, não há justificativa para se grafar HP, PM, CD, AIDS ou Aids, HIV, TV ou Tv, DJ e LP, mas hp, pm, cd, aids, hiv, tv, dj e lp. “A quantidade de litros de capacidade de um motor tem pouco a ver com sua potência em hp”; “O pm surrou o bandido”; “O cd foi gravado com dinheiro do governo”; ”Pegou aids na suruba”; “Mais gente contaminada pelo hiv”; e assim por diante. O caso da aids é típico. Na imprensa escreve-se Aids ou AIDS, mas ninguém sai por aí escrevendo sarampo, caxumba, pingadeira, dengue, cólera etc., é ou não é? Siglas e acrossemias em geral criam dificuldades para leitores e espectadores, porque exigem ser decifradas.

Não sou um defensor implacável da rigidez gramatical; pelo contrário, aprendi escrevendo na mídia e, por isso, estou sempre buscando a simplificação, a clareza, a concisão e a exatidão. A linguagem, qualquer linguagem, é um meio de expressão e de comunicação, e como tal deve ser julgada exclusivamente. Penso que devemos respeitar algumas regras básicas da gramática para fugir dos desacertos mais evidentes —a meu ver, a maioria das regras deve ser esquecida ou automatizada a ponto de as usarmos sem perceber, isto é, com a mesmo naturalidade com que respiramos.

Há mais ou menos vinte anos Luís Fernando Veríssimo escreveu que “a sintaxe é uma questão de uso, não de princípios. Escrever bem é escrever claro, não necessariamente certo”. Na época, seus argumentos provocaram polêmica, mas não é difícil concordar com o escritor gaúcho.

Mas se as regras devem ser esquecidas ou abandonadas em favor das já citadas simplificação, clareza, concisão e exatidão, também não devemos abusar e partir para a ignorância sem peias. Foi o mesmo Veríssimo quem afirmou: “A gramática precisa apanhar todos os dias para saber quem é que manda”. Mas não devemos abusar da violência nas surras, pois podemos aleijá-la ou até matá-la. Portanto, perdão leitor pelos nossos erros.

“Ensinamentos” como os do meu "professor" tuiteiro são perfeitamente dispensáveis, pois quem não sabe, acredita. Preserve-nos da ignorância, professor... Talvez a gente deva andar com um Hoauiss debaixo do braço e sacá-lo rapidamente toda vez que alguém nos afrontar com a incultura. Em caso de dúvida, pergunte. Não é vergonha perguntar. Mas é vergonha ser ignorante.

_Men in black

[>>>]
Antigamente, eles se chamavam jagunços, cabeças-secas ou mata-cachorros. Eram poucos e tinham menos visibilidade; não eram figuras urbanas, mas rurais. Hoje eles são os guerreiros, mercenários da guerra civil não declarada que se trava no Brasil. São os rapazes de uniformes coloridos, em geral imitando policiais norte-americanos —também se vestem de ternos negros: são os homens de preto. Men in black.

Esses jagunços da era cibernética nunca estão sozinhos, sempre em grupo. Usam óculos escuros, falam em walkie-talkies ou telemóveis, ouvem através de pequenos fones presos nos ouvidos, todos de terno preto e camisa branca. São ternos mal-cortados e suados, camisas rotas e mal-ajambradas, gravatas pretas e mal atadas. Ou então vestem uniformes que imitam trajes militares, coloridos e espalhafatosos. Eles são verdadeiras réplicas vivas mal escanhoadas de cães de aluguel, tal e qual num filme de Quentin Tarantino. Os tais jagunços aggiornatti são os guarda-costas que protegem o rabo de quem tem medo, de quem tem o dito cujo preso. Quanto mais cagaço, mais men in black com olhar de pitibul encarando a gente, desafiadores, assustando qualquer um que cruze nos seus tortuosos caminhos.

Trabalham em empresas de segurança com nomes estrambóticos como Luger (o mesmo da pistola que se tornou um dos mais eloqüentes símbolos do nazismo) ou Swat (sigla inglesa de special weapons and tactics, ou armas e táticas especiais, um dos signos da violência policial oriunda dos EUA), Magnum, Repressão. Em seus uniformes coloridos, com seus ternos pretos, com seus carros de luzes coloridas piscantes no teto, ou seus caminhões fortes, eles parecem se sentir donos das ruas da cidade.

Segundo levantamento do Ministério da Justiça e da Polícia Federal, existiriam 1.300 empresas de segurança privada e 500 mil vigilantes legalizados, no Brasil. Além destes, levantamento da Confederação Nacional de Vigilantes indica que existem cerca de 600 mil homens trabalhando clandestinamente em serviços de segurança privada. Quer dizer, um verdadeiro exército de mais de um milhão de soldadinhos de chumbo arrogantes e mal–treinados.

A proliferação destes serviços de segurança privada legal e ilegal aumenta o risco de ações violentas e contribui muitas vezes para o aumento do número de homicídios. Amigo meu conta que noutro dia um carro fechou o seu em uma avenida qualquer. Quatro caras vestidos de preto estavam dentro do veículo, os sentados no banco de trás estavam com os braços para fora da janela, carregando as portas debaixo do sovaco (uma característica de testosterona em busca de encrenca). Era uma van preta, reluzente, com os indefectíveis vidros fumê. Ele pensou com seus botões, instintivamente: “minha hora chegou!”. Naquele átimo pensou em alternativas de fuga, mas no meio daquele trânsito nenhuma lhe pareceu viável.

Ledo engano, entretanto. Alívio. O quarteto era os homens de preto de um carro estrangeiro que, com uma majestade impassível ia costurando faixas mais adiante. O solitário motorista dirigia displicentemente; uma mão ao volante, a outra segurando um celular grudado na orelha, alheio à sua derriére, que ele sabia bem protegida. Na tentativa de não perder o seu amo e senhor de vista, os quatro homens de preto quase provocaram um acidente. Aceleraram, brecaram, arrancaram e partiram (olhos faiscando, sovacos vertendo suor), cantando pneus, atrás do seu dono.

Não era oficial o carro de sua excelência —logo, os jagunços também não. Por que teriam o direito de se achar com a preferência naquele trânsito? E os oficiais podem? Se o bacana no seu BMW (que o vulgo no Brasil teima em chamar de beemedabliu) estivesse sem guarda-costas, ele (ou eles) se sentiria tão impune? Quando não estão fazendo estrepolias nas ruas, os meninos da segurança privada estão com seus caminhões de transportar dinheiro estacionados em fila dupla em vias de grande movimento, mesmo que tenham áreas reservadas para parar.

Não precisa ter lá grande poder para se sentir como um senhor da guerra medieval —basta ter bufunfa no banco para bancar o sistema. Aliás, andar com os men in black hoje em dia passou a ser sinal de status. Como nos filmes de capa-e-espada, o sinhô vai de um ponto a outro protegido pela matilha, com o olhar perdido no horizonte enquanto atrás dele vêm os cães de aluguel fazendo com que todo mundo se aparte. Eles mantêm à distância a patuléia armada do andar de baixo —e que muitas vezes também se arvora da mesma arrogância, mas por outros motivos.

Tais como samurais do asfalto, os homens de preto se sentem protegidos pela impunidade do bwana que os contrata. E são invisíveis, porque todos fingem que não os vêem —por isso se sentem acima das regras que regem as vidas dos outros mortais. São os acessórios de um poder encurralado que se esconde no carro blindado, atrás do vidro fumê, das cercas eletrificadas, micro–câmeras de tv escondidas, ou do arame farpado, —mesmo arame farpado que se vê nos campos de batalha—, porque o Poder Público em quase todo o mundo não consegue impor a segurança para a sociedade —e olhe que o cidadão paga rios de dinheiro em impostos para isso.

Os homens de preto são, também, o reconhecimento de um medo e, quem sabe, da culpa de uma sociedade que se isola mais, se escondendo da patuléia esfaimada do porão, cercados por grades e mini–câmeras de tv —verdadeiras prisões de luxo. Teoricamente, segundo a clássica definição de Max Weber, o Estado é o detentor do monopólio da violência legítima dentro de um determinado território. Desde que os cidadãos abdicaram de seus “direitos naturais” em favor do Estado, somente ele tem o poder e o dever de zelar pela segurança externa e interna, policiando, julgando e punindo os infratores da lei.

Julgar e punir criminosos ainda é monopólio estatal em quase todos os países civilizados, não obstante a freqüência das tentativas populares de "fazer justiça com as próprias mãos”, quando avaliam que o Estado atua de maneira ineficaz. Ainda que existam, na prática, atividades como linchamentos, vigilantismo, violência policial e esquadrões da morte são ilegais, mesmo contando não raramente com a aprovação popular quando as vítimas são "criminosos".

O poder de polícia, por outro lado, vem deixando há várias décadas de ser um tipo de atividade monopolizada pelo Estado. Neste setor está ocorrendo uma erosão do monopólio público, provocada tanto pelas iniciativas comunitárias de autodefesa —do gênero neighborhood watch— como, principalmente, pela expansão das atividades da indústria da segurança. Hoje a função de policiamento é repartida entre o Estado e a sociedade, e esta última vem adquirindo cada vez maior proeminência —daí as Luger e as Swat da vida.

Em diversos países do mundo, desde os anos 1970, o número de vigilantes privados superou em quantidade o de policiais treinados e pagos pelo Estado: nos Estados Unidos, por exemplo, existiam, em 1990, cerca de três vezes mais seguranças particulares (dois milhões) do que policias, estimados em 650 mil. A projeção norte-americana é de que na primeira década do século 21, que termina o ano que vem, os agentes de segurança particulares cresçam anualmente ao dobro da taxa dos policiais. Na Inglaterra e no Canadá a situação é a mesma: existem duas vezes mais seguranças particulares do que policiais e a taxa de crescimento do setor privado é mais rápida do que do setor público. Os dados existentes para São Paulo revelam uma tendência parecida. Em todo o Estado existem cerca de 400 mil vigilantes privados, em comparação com 120 mil policiais civis e militares, numa proporção de 3,3:1.

Nem por isso a vida do moderno centurião é fácil. Os seguranças, os vigias, os modernos jagunços da era da informação ficam na frente das casas ricas, com arquitetura esmerada, sentados em móveis desprezados, muitas vezes com uma cuia de tereré nas mãos. Acontece que os homens de preto são a prova de que essa proteção inicial, individualista e paralela à de um Poder Público insensível, não deu certo. E é o testemunho de que eles também não darão. Porque o remédio para a insegurança é outro. Mas esta é outra história. Ou outras histórias.

Mesmo assim, até moradores de bairros de classe média baixa estão contratando seguranças para vigiar a quadra da rua em que moram. Observe: embora seja uma atividade ilegal, começam a espalhar-se pela cidade guaritas ocupadas por guardas privados —geralmente gente de máfias formadas nos bairros mais pobres da vizinhança. Antes, apenas condomínios e estabelecimentos comerciais contratavam seguranças. Tratava-se, em essência, de proteger prédios particulares. Agora são ruas, bens de uso comum do povo, que passam a ser objeto de vigilância particular.

Um horror. Está na hora de pensar que não é porque come pedra que a galinha bota ovo inquebrável.

terça-feira, 1 de dezembro de 2009

.::Oração do eleitor

[>>]
Esta oração está sendo difundida pela Internet e serve para eleitores de todas as cores do espectro político. Como as coisas andam pra lá de mal ajambradas na campanha que se encerra daqui a alguns dias, aconselho a todos a usar esta prece antes de votar. E espalhar para os parentes e amigos.

Senhor, iluminai-nos na hora de votar. Não deixe o nosso coração se enganar com falsas promessas, nem com propaganda espetaculosa. Enviai o Espírito Santo, para que abra bem os nossos olhos, de modo que possamos escolher e trabalhar por candidatos comprometidos com valores altamente éticos e morais, como o direito dos pobres e a vida para todas as pessoas e comunidades, e vida em abundância. Maria Santíssima, ajude-nos a eleger as pessoas que dão provas de amor ao povo, são honestas e transparentes, servidoras da justiça e da paz. Assim, haveremos de contribuir para um Brasil melhor e um mundo marcado pela globalização da solidariedade. Amém.

domingo, 29 de novembro de 2009

_Pirata é a mãe! [ ]

[>>]
Aficionado de cinema, que no mais das vezes vejo em dvd, não consigo aceitar a boçalidade das campanhas contra os vídeo piratas insertas nos discos pela União Brasileira de Vídeo (UBV). E não tem nada a ver com defender a pirataria ou não (pirataria no Brasil é um problema cultural e este não é o assunto deste artigo) —tem a ver com lógica da comunicação.

A imagem do executivo de produtora com chapéu de cone ou orelhas grandes é estúpida e sem sentido. Partindo do princípio de que nenhum dvd pirata terá esse tipo de mensagens, e se gente assiste um dvd original (que você comprou ou locou certinho, dentro da lei), qual a razão de se colocar uma mensagem contra dvd pirata? Na verdade, só chateia que vê.

É óbvio que a mensagem está sendo veiculada para um público que já sabe das desvantagens desse tipo de produto. Não será através deste meio que as pessoas que compram o dvd do filme Piratas do Caribe, por exemplo, irão se convencer que dvd pirata é uma porcaria, pois quem comprou (ou alugou um dvd original) já sabe disso... O que mais impressiona é que essa lógica quase primária não é óbvia na cabeça de uns e outros que têm o poder de decidir a colocação dessas mensagens em um disco de vídeo. E com isso, os usuários têm que aturar essas produções baratas de quinta categoria antes de ver o filme que comprou ou alugou.

E pra piorar, como sempre, a grande maioria das mensagens insertas nos dvds (introduzidas antes do material principal) não possibilita o avanço ou que sejam evitadas de alguma forma —o controle remoto fica bloqueado. As produtoras e replicadoras obrigam os cinéfilos a assistir a baboseira anti-pirataria através do modo em que o dvd é autorado, sem a opção de avançar ou pular a mensagem!

Esse é o tipo de imagem de mau gosto que todo mundo está sujeito a ver nessa campanha contra a pirataria. Há casos definitivamente estúpidos, com filmes claramente voltados para crianças, que exibem imagens de violência e menção ao uso de armas e drogas (agressivas e de péssimo gosto).

Recentemente, questionada sobre a intenção da UBV em vincular a campanha para um público que já é esclarecido e que valoriza o original, a diretora executiva da UBV, Tânia Lima, disse que "a polemização foi fundamental para a divulgação da campanha. Tudo o que é morno é morto, não marca, é esquecido. O público de dvds que consome produtos originais, muitas vezes também consome produtos piratas, isto é fato, mas o que deve ser ressaltado é que o projeto não foi desenvolvido tendo como escopo apenas a inserção dos filmes nos dvds." A lógica da Senhora Lima é burra, pois a campanha só consegue aborrecer um público que já é fiel.

Toda vez que a filha de sete anos de idade de uma amiga quer ver um dvd, a mãe tem que desligar a tv por alguns minutos para que ela não seja bombardeada por essas porcarias que aparecem no início. Conheço gente que fez até cópia do dvd em dvd-r sem a presença das mensagens, para que seja mais fácil evitar este tipo de aviso idiota. Eu particularmente penso que que isso é parte do meu estoicismo diário.

Isso é absurdo. Se desejam veicular uma campanha inócua e mal produzida, que veiculem, mas deixem o consumidor decidir se quer ver ou não. Se essas produtoras querem se diferenciar em relação ao produto pirata, que invistam no produto original. Mas o que estamos vendo no mercado brasileiro de dvds brasileiro é justamente o contrário. Ao invés de ficar colocando essas barbaridades no início de cada dvd, quem sabe não seria mais inteligente oferecer ao brasileiro discos com extras mais adequados (legendados no mínimo), embalagens mais caprichadas (e não estojos molengos ou fininhos), dublagens clássicas, informações completas, sinopses bem escritas e bem traduzidas, formatos de tela sem mutilação, imagem de qualidade etc.

Enfim, seria mais efetivo adicionar coisas que realmente não sejam oferecidas pelo produto pirateado, pois essa guerra, da maneira que está sendo combatida pelas produtoras, a gente já sabe qual será o vencedor. A gente nota como as locadoras estão esvaziadas... E não é só por causa da evolução tecnológica, não. Enfim, pirata é a mãe!

sexta-feira, 27 de novembro de 2009

¬¬¬Aquilo que excita os moralistas

[>>]
Afinal, qual é a diferença entre erotismo e pornografia nas artes (visuais, literatura etc.)? Etimologicamente, as palavras nada têm a ver uma com a outra, mas é comum hoje em dia taxar de erótica uma pornografia, digamos, mais light. Umberto Eco, semiólogo, escritor e estudioso de literatura italiano, supõe haver encontrado o critério ideal para diferenciar-se um filme, uma peça de teatro, ou um programa de tv é pornográfico ou erótico.

Diz Eco que o critério é o de avaliar a demora, ou seja, julgar-se na obra os acontecimentos ocorridos na história ocorrem no tempo real. Por que ele propõe esse critério? Porque, segundo ele, no filme pornográfico, acontecimentos banais ou prosaicos do cotidiano (lavar as mãos, passar roupa, conduzir um carro) preenchem a ausência de elementos significativos na trama que, aliás, quase nunca interessam ao espectador, e aliviam o excesso de cenas lascivas obrigatórias no gênero, enquanto que as cenas e seqüências duram quase que o tempo normal utilizado por duas pessoas na realidade —às vezes o tempo é até esticado. O enredo não interessa, o sexo sim. Daí a demora.

Erotismo, na ficção, na História e na vida, é aquilo que exalta os sentidos, prepara a entrega ao prazer. Já a definição de pornografia tem variado com o contexto histórico, cultural e político. A mesma coisa para a aceitação do erotismo na ficção ou na poesia. Variam as reações conforme a época. Considerando que em nossos tempos, de medo da aids ou outras doenças sexualmente transmitidas, a exposição de corpos nus ou seminus e poses sugestivas são lugar comum, é mais difícil ainda precisar o que é erótico, o que é pornográfico.

Na ficção de uma maneira geral —romances, contos, poesia etc.—, o autor pode gastar três linhas para descrever uma seqüência de acontecimentos ou um período de dez anos. E o sexo, na literatura? O espaço ocupado em descrevê-lo também serve para definir se uma obra é pornográfica ou não?

Vejamos a obra de um autor brasileiro, grande sucesso de público recentemente, “A Casa dos Budas Ditosos”, do baiano João Ubaldo Ribeiro. As narrativas das ações sexuais dos personagens não correspondem ao tempo real, mas são detalhadas, abundantes. O mesmo acontece com um livro citado pela narradora e protagonista do livro de Ribeiro, “A História de O", da francesa Pauline Reage.

Ambos são romances de falsas memórias de mulheres. Há, entretanto, duas diferenças grandes entre eles: o francês é escrito sob pseudônimo, o brasileiro é assumido pelo consagrado escritor e acadêmico. O principal, no entanto, é que a história que a mulher narra no livro brasileiro são memórias libertárias. Poderiam ser resumidas ao seguinte argumento: o direito inalienável do ser humano ao gozo absoluto, com quem, onde e quando bem entender, independente de qualquer limite social ou cultural. Liberado, inclusive, o incesto.

Já no livro francês, as memórias são sobre o quanto uma mulher se deixa submeter sexualmente por amor ao seu homem e o quanto de prazer consegue obter nessa via crucis de, submissão, flagelação e promiscuidade. Ela pertence a todos os homens que o homem dela deseja que seja e de todas as formas que esses homens quiserem, porque assim ela realiza o ideal dele de amor absoluto. E o seu de submissão abjeta.

Em última análise, o sexo detalhado nas duas obras está, portanto, a serviço de questões éticas da maior relevância. É uma escolha estética dos dois autores colocar como uma mulher seduz as pessoas (homens e mulheres) para o seu prazer ou como se deixa flagelar por elas (homens e mulheres) para o prazer deles. O texto ser sexualmente excitante para alguns leitores ou sexualmente escandaloso para outros, é apenas uma intensificação do efeito.

Sempre existe espaço para o leitor examinar a vida e a cama das protagonistas e, quem sabe, mergulhar no interior de si mesmo. Com sorte, dá até para avaliar, ao fim e ao cabo, o próprio erotismo. Apenas é preciso ter uma visão mais aberta sobre a questão, caso contrário caímos no velho mote de que pornografia é tudo aquilo que excita os moralistas, ou falsos moralistas.

quinta-feira, 26 de novembro de 2009

_De homens e de sabonetes

[>>>]
Pode não parecer ao cidadão comum, mas já foi dada a largada —e faz tempo— para a corrida eleitoral de 2010, ainda que falte quase um ano para o pleito. E o que já se depreende pode ser visto como um exemplo do ponto de desenvolvimento a que chegou o marketing político e eleitoral.

Todas as semanas, quase todos os dias, são divulgadas novas pesquisas que dão conta do andamento das preferências de voto e da forma como os cidadãos vão reagindo aos desenvolvimentos das campanhas de cada lado. Boa parte da mídia se dedica ao noticiário político-eleitoral, empregando grandes de quantidades de tempo e espaço aos pretensos candidatos a todos os cargos, destacando-se os candidatos à Presidência da República. Mas nos Estados os candidatos a deputado estadual, deputado federal, senador, governador também ocupam a parte que lhes cabe neste latifúndio.

Parece mesmo uma corrida, mas o que é publicado nos meios de comunicação é apenas uma pequena parte da história. Na realidade as sondagens são usadas de forma muito mais completa do que parece. Eles não se limitam a medir as intenções de voto em cada candidato e a abstenção. Na realidade fazem verdadeiros estudos de mercado, no mais completo significado da palavra. Procuram saber com o maior detalhe o que os eleitores pensam sobre todos os assuntos, para, como faz qualquer especialista em marketing de bens de consumo, adaptar o seu “produto”.

Se as sondagens mostram que as pessoas estão preocupadas com a segurança, então os candidatos todos irão desfiar um rosário de propostas para melhorar a segurança. Pode ser que nem haja dinheiro para fazer tudo isso, mas depois a gente vê. Para já o que é necessário é persuadir os eleitores de que o nosso “produto” é muito bom nesse aspecto. É preciso saber que assuntos preocupam o “mercado” e o que ele deseja em relação a cada um desses temas.

Depois de fazer esses “estudos de mercado”, é necessário adaptar o “produto”. Isso começa logo na escolha do “produto”. Será inocente que o Partido dos Trabalhadores tenha escolhido uma candidata, a Sra. Dilma Roussef, com seu estilo gerentona, quando se sabe que os petistas têm a pecha de maus gestores da coisa pública? A própria escolha dos candidatos é mais influenciada pela sua capacidade de cativar as simpatias do eleitorado, nos seus diferentes “segmentos” e “nichos”, do que pelas suas capacidades de vir a governar bem ou, muito menos, pelas suas propostas ou ideias.

Depois da escolha do “produto” a vender aos eleitores e da sua “adaptação” às preferências reveladas pelos estudos de mercado —basta analisar as mudanças "gráficas' da Sra. Roussef—, o marketing político-eleitoral vai preocupar-se em posicioná-lo, usando a campanha eleitoral (propaganda e publicidade) e todo o tipo de eventos em que o candidato possa falar para o distinto público eleitor através da comunicação social (relações públicas).

É a altura de dizer às pessoas aquilo que previamente se ficou sabendo o que elas querem ouvir. Mesmo que não seja pra cumprir —claro!. É por isso que os diferentes candidatos dizem quase a mesma coisa. Foi o que os estudos de mercado demonstraram que as pessoas queriam ouvir. Como o mercado é o mesmo, é natural que os estudos feitos pelos diferentes partidos produzam aproximadamente os mesmos resultados.

Se os eleitores estão preocupados com a saúde, todos os candidatos vão apresentar ideias para melhorar os serviços de saúde. Se pensam que o estado deveria baixar os impostos, o que é que os candidatos vão propor? Reduzir a dívida pública ou reduzir os impostos? Como, regra geral, é a classe média que decide as eleições, são os assuntos que preocupam este grupo social que preenchem a maior parte das campanhas eleitorais.

Esta necessidade de posicionar os candidatos de acordo com aquilo que o mercado (isto é, o eleitorado) pretende é levado ao extremo quando se trata de debates ou outro tipo de aparição televisiva, até porque a tv é a máquina primordial do marketing político —pelo menos até agora, já que tudo indica que em breve será a Internet.

Por isso se chega ao ponto de treinar o tom de voz e os gestos que o candidato deve usar, para transmitir, por exemplo, uma imagem de autoridade e segurança (se foi isso que o estudo de mercado mostrou que preocupa as pessoas). Já não se trata apenas de escolher e adaptar o produto (candidato) às preferências do mercado, reveladas pelas pesquisas. Trata-se também de adaptar a embalagem.

Já não é só aquilo que o candidato diz que é escolhido em função dos estudos de mercado. É também a forma como o diz, o tom de voz, a aparência, os gestos, as reações. Diz quem sabe que para ganhar uma eleição destas é preciso ser realmente muito bom ator. Alguém se lembra do Ronald Reagan? Não, esse não foi um bom exemplo do que acaba de ser dito, porque ... em Hollywood nunca foi lá grande coisa como ator.

De tal forma o marketing domina a política nos dias de hoje que, faltando tanto tempo pras eleições, os candidatos já usam todo tipo de artimanha mercadológica pra "vender-se" aos eleitores. Muitos já praticamente abandonaram suas atividades regulares, mesmo aqueles que são detentores de mandatos —aliás, principalmente os detentores de mandatos.

No entanto, a origem da democracia não foi esta. Já houve quem classificasse o sistema democrático em duas eras: am e pm (antes do marketing e pós-marketing). Pense bem!, onde está a ideologia, na democracia dos nossos dias? Antes os (grandes) políticos eram também filósofos e das suas reflexões saíam propostas para as grandes causas da sociedade, para os problemas sociais, para melhor a estrutura organizativa do estado, para desenvolver a economia, para estruturar o sistema educativo, a assistência social, economia...

Hoje ninguém quer saber das "grandes causas", ninguém apresenta ideologias como forma de cativar os eleitores. Há quanto tempo se deixou de falar em social democracia, democracia cristã, socialismo e até mesmo de comunismo? Os políticos hoje são realmente promovidos como xampus ou sabonetes. Não se fala da sua função principal (lavar as mãos, não é?), só se promovem os aspectos de cosmética (o perfume, o deixar a pele macia, a capacidade de hidratar...).

Da mesma forma, ninguém promove um candidato pelos seus ideais, ou sequer com os seus projetos para a sociedade. O que é promovido é o seu sorriso, o seu tom de voz autoritário ou afável, ou a sua intenção de reduzir os impostos da classe média ou aumentar os lucros das classes altas. Por isso são cada vez mais iguais. Por isso a abstenção é cada vez maior. E é por isso também que, na véspera das eleições, estão sempre empatados.

Esta corrida eleitoral brasileira está também mostrando que o marketing televisivo terá atingido os seus limites. Os especialistas dos dois lados leram os mesmos livros, sabem os mesmos truques, dominam as mesmas técnicas de estudo de mercado e de marketing eleitoral. Por isso estão chegando a um empate —veja as pesquisas mais recentes!

Espera-se que, por isso, chegue-se a um ponto de viragem. No futuro não bastará desenhar um político à imagem dos estudos de mercado e depois vendê-lo como um sabonete ou um rolo de papel higiênico. Vai ser preciso diferenciá-lo. Para isso será necessário voltar às grandes causas e, se não às ideologias, pelo menos aos grandes projetos para a sociedade. Político sem projeto será apenas mais um sabonete (e nem sempre cheiroso) na prateleira do supermercado.

quarta-feira, 25 de novembro de 2009

[Todos contra o Google]

¬¬¬
Nos EUA, editoras de jornais de Denver (Colorado) e Dallas (Texas) podem se unir ao australiano Rupert Mardoch e seu conglomerado de comunicação News Corp., e bloquear parte de seu conteúdo no site de notícias da Google, informa o diário El Economista, com informações da Bloomberg.

Segunda maior empresa de mídia dos Estados Unidos (atrás apenas da Disney), a News Corp., está em negociação com a Microsoft para entregar os direitos exclusivos para difusão de seus conteúdos do novo portal da companhia de software, Bing, que não anda bem das pernas, informaram os jornais Financial Times e El País.


A Corporação Australiana de Radiodifusão acrescenta que a "Microsoft,de Bill Gates, e Rupert Murdoch uniram forças contra um inimigo comum. (...) A Microsoft quer transformar seu próprio sistema de busca, o Bing, em um verdadeiro concorrente da Google". O Bing foi lançado com pompa e circunstância, mas está longe de concorrer com o Google.

Murdoch já havia ameaçado este mês remover todo o conteúdo de seus jornais —inclusive o Wall Street Journal e o Times, de Londres— como parte dos planos da News Corp. de cobrar por todo seu conteúdo online. Pessoalmente, penso que será péssimo para a News Corp. se aliar com exclusividade à Microsoft, até porque o Bing vai ter de andar muito pra alcançar o Google.

>>>Perfeição

[Você acha mesmo que ninguém é perfeito?! Então, é porque você não conhece um perfeito idiota.

.::O silêncio dos idiotas

[>>]
Basta olhar em volta pouca coisa mais atentamente pra verificar que a estupidez humana não tem limites. Nesta manhã fui obrigado a parar atrás de um Fiat Uno que tinha afixado no para-brisa traseiro um plástico com uma das frases mais idiotas e cruéis que já li: "aqui é como o World Trade Center: só entra avião!". Essas pessoas deveriam ser mudas e analfabetas: existe coisa mais apropriada do que o silêncio dos idiotas?

terça-feira, 24 de novembro de 2009

.::Chore!, porque é assustador


[>>]
Em qualquer lugar que a gente vá —lojas, bancos, supermercados, padarias e até borracharias—, é quase certo que encontrará um cartaz com os indefectíveis dizeres: Sorria!, você está sendo filmado. A lente de uma câmera impassível fixa nas pessoas um olhar vítreo, sem expressão. Ao contrário dos olhos humanos, nem pisca. O que fazer? Sorrir? Não! Iria parecer tão artificial quanto as pálpebras metálicas daquele olho de vidro. Eu fico muito assustado quando vejo o diabo do aviso e sempre penso no que a frase realmente significa. É fácil compreender a parte que diz “você está sendo filmado” —é uma mera advertência, mas o “sorria” me deixa confuso, paranóico. Se fosse um “atenção!, você está sendo filmado”, seria mais fácil de compreender, ou até um “não faça merda porque estamos te vigiando”. Mas “sorria” é uma baita sacanagem...

O que a câmera iria pensar de mim? Espero que não venha a público minha obsessão pelos traços e riscos da expressão. Resquícios de uma mocidade fotografando imagens que passaram incógnitas por não serem retratos falados. Desenho retratos mentais como distração. Olho fixamente tudo e todos, descobrindo a feiura e a beleza. Se no passado nossa imagem permanecia na memória passageira, hoje praticamente todos os registros são permanentes. O que a gente escreve fica perpetuado na memória do computador ou na rede mundial, na Web, que não por acaso quer dizer teia. Pode ser copiado, replicado, duplicado, multiplicado. O teclado vibra com o tlec tlec das teclas, como uma escrita com batuque, letras e letras formando textos dos quais nem me lembro mais.

Estou sempre dizendo que esta é a era da imagem —a imagem reina absoluta. Se você parar um minuto para pensar vai ver que a imagem reina sobre todas os meios e formas de comunicação: o meio de comunicação das massas é a tv (ainda); o meio de comunicação das elites é a Internet; com a multivariedade dos veículos, ambos embasados na imagem. A publicidade é cada vez mais imagética, a partir do momento em que os publicitários não têm mais para o quê apelar diante da infinidade de produtos similares —muitos deles nem escrevem, até porque não sabem mesmo.

Ou seja, antigamente, quando existiam duas ou três marcas de cada coisa, era mais fácil convencer as pessoas a comprar este ou aquele produto simplesmente elencando as vantagens de um ou a exclusividade de outro: Melhoral é melhor e não faz mal! Omo lava mais branco! Se é Bayer é bom! Skol, a primeira cerveja em lata do Brasil! Agora, muitas vezes a publicidade precisa apelar para o non-sense da imagem: banda com músicos de pele azul, pipoca produzida em vulcão que "chove" sobre um vilarejo, Ajay Bhatt desfilando no escritório, os ridículos comerciais da Skoll (olha a chuleta da Vivi e frases que tais).

Mais: a televisão contaminou com o vírus da imagem todos os outros meio de comunicação. Os jornais são cada vez mais calcados nas fotos coloridas, nos infográficos, nos esquemas e desenhos do que na informação escrita. O cinema há muito perdeu sua função artística e política em nome de uma estética de videoclip, estruturada a partir efeitos especiais. As revistas são vitrines, lunetas se preferirem, para que a escumalha possa espionar a intimidade das celebridades, invadir o privado como quem participa de um sarau, mostrando bundas e pixocas. Só o rádio passou incólume —mas o que é a tv senão rádio com imagens?

Se os obcecados por imagens se contentassem só com isso já seria ruim, mas eles agora descobriram outra utilidade paras as suas câmeras indiscretas: invadir todos os lugares possíveis e imagináveis através dos seus implacáveis olhos. Nos EUA, lojas de departamentos e roupas instalaram câmeras nos provadores. Quando alguns clientes descobriram o atrevimento, processaram as empresas e... Perderam! Os juízes entenderam que os comerciantes têm que se proteger dos ladrões, e que o registro em tempo real do que se passa numa cabine de troca de roupa era uma boa arma para isso. Azar de quem não é ladrão.

Por aqui, está cada vez mais difícil entrar num estabelecimento comercial sem se deparar com o horripilante “Sorria!, você está sendo filmado!”. Porém como empresário brasileiro não tem o dinheiro sobrando, como seu colega norte-americano, fica a dúvida de que a câmera não está realmente só na imaginação do autor do aviso —além das câmeras falsas, criadas só pra te assustar—, mas é bom não arriscar.

Por outro lado, a vigilância sobre os cidadãos, pobres mortais, pode ir muito além daquela mostrada em filmes como “Inimigo do Estado”, dirigido por Tony Scott, no qual um advogado (Will Smith) é caçado, vigiado e filmado: o que quer que faça ou aonde quer que ele vá, câmeras estão lhe filmando —e, também, muito além da própria imagem. Faz já algum tempo, a Comunidade Européia vem denunciando que os EUA monitoram ligações telefônicas e mensagens trocados em todo mundo através de um complexo programa de vigilância denominado Echelon, um monstro feito de muitos computadores e pelo menos cinco bases —a base que monitora as ligações e e-mails do Brasil fica em Segar Grove, a 250 km de Washington, a capital dos EUA—, capaz de fazer três bilhões de interceptações por dia.

Echelon —uma espécie de Big Brother (o do George Orwell) do terceiro milênio— é uma estrutura que a todos espiona. É controlada pela Agência de Segurança Nacional —NSA na sigla em inglês— dos Estados Unidos e seus “sócios” da Inglaterra, Canadá, Austrália e Nova Zelândia. Segundo os relatórios que estão sendo analisados pelo Parlamento Europeu, o projeto tem como principal objetivo interceptar todas as comunicações mundiais em quaisquer locais do planeta —sejam essas conversas telefônicas, faxes, e-mails, telex, mensagens de pagers ou qualquer outra modalidade de comunicação eletrônica.

Esse programa espião “filtra” palavras ou grupos de palavras que possam denotar algum perigo à segurança nacional dos EUA. Rastreia todos os satélites de comunicação, comunicação por cabo e ondas. Qual seja: potencialmente somos todos vigiados pelos que se auto-intitulam gendarmes do planeta.

Resumindo, se você escrever ou falar ao telefone algo que o sistema considere potencialmente perigoso, todo o conteúdo da sua ligação telefônica ou do seu e-mail será devidamente armazenado. Isso quer dizer que, pelo simples fato de eu ter citado o Echelon, você e eu estamos sendo vigiados: somos duas pessoas altamente suspeitas! Sendo assim, como manda o cartaz, sorria e pense que, se por um lado toda essa vigilância é uma invasão tremenda de privacidade, nos momentos de solidão sempre se pode tirar o fone do gancho e mandar um alô para os norte-americanos. O povo do Echelon vai vibrar de felicidade...

É possível que o “Sorria!, você está sendo filmado!” seja uma referência a Andy Warhol, o pai da arte pop que mudou a arte nos anos 1960 com suas imagens, alcançando grande celebridade ao transformar uma lata de sopa e histórias em quadrinhos em obra de arte: ele já falava sobre a cultura pop em que todos um dia terão seus quinze minutos de fama. Sorria!, pois você é a celebridade da hora, quando sua imagem viaja a partir das câmeras e através dos cabos para o deleite de porteiros, vigias e seguranças que, voyeristicamente, estão de olho em você. “Sorria, pois aí estão seus quinze minutos de fama”. E não faça merda!

Pode ser também que a onipresente advertência represente a alegria que devemos sentir ao saber que essas pequenas câmeras nos protegem de eventuais contraventores —muitas delas falsas diga-se novamente a bem da verdade. O que é algo no mínimo interessante. Isso significa que chegamos a um ponto em que precisamos nos vigiar para não se fazer bobagem. Uma sociedade que precisa ser vigiada e controlada pelo Big Brother —ou Mano Veio— e ainda mostrar os dentes de alegria por isso é um completo fracasso em termos de civilização. “Sorria, pois ainda somos um bando de símios que não aprenderam a viver socialmente”.

Ou então signifique apenas que seja uma piadinha de alguém que se ache realmente criativo. Provavelmente aconteceu o seguinte: numa conversa de bar, depois de muitas cervejas alguém disse para um dono de uma gráfica, por que não fazer um paralelo com o “sorrir pra câmera” com as câmeras de vigilância? Todos caíram na risada e acharam uma ótima idéia. Foi aí que surgiram as placas “Sorria, você está sendo filmado”. Coincidentemente nessa mesma conversa devem ter surgido também os adesivos “Sou feliz por ser católico!”, “Xique no úrtimo”, “Sou viciado em Jesus” e por aí vai. Mas sorria, fizemos uma piadinha infame! Ou melhor, chore!, porque é assustador.